JOÃO CALVINO: O OUTRO LADO
O texto 500 anos de João Calvino: pensamentos sobre sua história e contribuições, escrito por Alderi Souza de Matos apresenta uma abordagem positiva da vida de João Calvino. Embora o autor até exponha algumas feridas da trajetória deste líder da Reforma Protestante, o seu maior trabalho neste texto é enaltecer as contribuições de João Calvino para o Cristianismo.
O autor registra o marco do 5º centenário do nascimento de João Calvino em 10 de julho de 2009 e as ações e manifestações de homenagem realizadas com maior ênfase no meio protestante no exterior e no Brasil, principalmente pelas denominações presbiterianas e com pouca ênfase na mídia e nos meios seculares, que de um modo geral a pouca repercussão causou indignação ao autor.
João Calvino era francês e o único reformador latino, a influência de seu pai no clero da igreja de Roma lhe rendeu portas abertas a boa educação da época, como o acesso a estudar nas Universidades de Paris, Bourges e de Orléans.
O primeiro livro de Calvino foi um comentário a antiga obra do filósofo romano Sêneca, intitulado De clementia. Entretanto, serão dois anos mais tarde que esse reformador se rende a fé evangélica, em 1533. Calvino participou do movimento Humanista na era do Renascentismo e foi influenciado pelo pensamento de Martinho Lutero, em especial pelo conceito da justificação pela graça mediante a fé.
Porém, em 1536, começou a escrever sua obra mais expressiva, Instituição da Religião Cristã, já com características próprias, assim se distanciando da teologia luterana, isso sem perder a qualidade literária e sinalizando para uma nova teologia, da qual recebeu influência do reformador suíço, Zuínglio e dos pensamentos de Agostinho de Hipona.
Em 1536 o líder reformado Guilherme Farel convida Calvino para pregar e ensinar as escrituras em Genebra, porém desentendimentos entre os dois pastores com o governo local leva Calvino a se mudar para Estrasburgo (1538-1541), onde continuou seu pastorado e os trabalhos acadêmicos, e conviveu com o reformador Martin Butzer. Não tardou muito e as mudanças políticas em Genebra levaram Calvino, novamente, àquela cidade onde permaneceu até sua morte em 1564.
O autor aponta três pontos como responsáveis pelas distorções e incompreensões a figura de João Calvino, das quais o qualificam pejorativamente, sendo que a primeira gira em torno da sua personalidade, porém o autor o qualifica como afetuoso, sociável e humano e caridoso.
A segunda devido a suas ações em Genebra, especificamente quanto à participação de Calvino como testemunha de acusação de Miguel Serveto, condenado à morte por negar a doutrina da Trindade. O autor não consegue se retratar, mas tenta desqualifica-la ao colocar na balança as lutas de Calvino junto aos governantes por justiça social.
A terceira é em relação a sua teologia da eleição ou predestinação, da qual alguns segmentos evangélicos mais radicais a qualificam como diabólica. Porém o autor sai em defesa a Calvino ao dizer que Agostinho de Hipona, já apresentava esse entendimento, e cita que até mesmo Lutero compartilhava da doutrina da eleição. Portanto, Calvino não inventou essa doutrina.
O autor enaltece as contribuições de Calvino e o aponta como o grande teólogo da Reforma, abordou os temas centrais da fé cristã com profundidade, perspicácia e criatividade e um cuidadoso esforço de interpretação das escrituras, por meio do método histórico-gramatical aplicado aos textos originais, dos quais servem até hoje de subsídios de estudo.
Além disso, destaca sua contribuição na área da educação, pois fundou a Academia de Genebra em 1559, sendo que seus ensinamentos e seus seguidores se espalharam pela Europa e ainda por terras longínquas, como nos estados Unidos onde fundaram as Universidades de Harvard, Yale e Princeton, e até mesmo no Brasil, na Baia de Guanabara ao elaborar a Confissão de Fé da Guanabara, quando enviou um pequeno grupo de huguenotes com objetivo de evangelizar um povo pagão (indígenas brasileiros).
Influenciou e atuou na política e economia e em espírito de solidariedade e compaixão lutou por estabelecer direitos e fazer justiça social.
Enfim, o autor neste trabalho não busca idealizar a figura de João Calvino, mas de desmistificar e humanizar o homem que dedicou sua vida para pregar, firmar o Cristianismo e enaltecer o Reino de Deus.
O texto nos remete a uma reflexão importante, vez que nos constrange, pois confronta a Igreja de hoje a buscar a visão do Cristianismo, ou seja, de enaltecer o que é bom, puro, verdadeiro, amável, de cada um de nós, assim como ensinou o apóstolo Paulo em Fp 4:8, para que o Evangelho de Cristo não fique confinado a denominações e a entendimentos humanos, mas a alcançar o propósito do Reino de Deus, de ser universal.
Referências bibliográficas
Revista Caminhando v.14, n. 2, p. 171-179, jul./dez. 2009

